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sábado, outubro 11, 2025

Somos filhos de mães-galinha — e a natureza sabia o que fazia

Quando minha filha tinha uns nove anos de idade, fui chamado para uma reunião de pais e mestres. A professora, muito convicta, começou com uma mensagem que parecia ter saído de um livro de autoajuda moderna:

— “Se quisermos que nossos filhos sejam fortes, precisamos deixá-los enfrentar a vida. O mundo é duro. Só os fortes sobrevivem.”

E então ela contou a famosa história da águia.
Quando chega o momento, disse ela, a mãe-águia empurra seus filhotes do ninho, do alto do penhasco, para que aprendam a voar por conta própria. Alguns sofrem, mas os sobreviventes tornam-se águias altivas, predadoras, poderosas. A natureza seleciona os mais aptos — e assim a espécie prospera.

Tudo muito inspirador, pensei.
Mas, ao mesmo tempo, algo me incomodava profundamente.

Porque nós, humanos, não somos filhos de mães-águia.
Somos filhos de mães-galinha — e de pais-galos também.

As galinhas não empurram seus pintinhos penhasco abaixo.
Elas os protegem sob suas asas. Ensopadas de instinto, de afeto e de um tipo de coragem que não precisa de voo.
Não precisam ser predadoras para garantir a continuidade da vida.

Se observarmos friamente, veremos que as águias são raras — majestosas, sim, mas escassas. As galinhas, por outro lado, estão por toda parte. Elas prosperaram. Multiplicaram-se. Venceram o jogo da evolução, não pela força, mas pelo cuidado.

E talvez esteja aí a lição que esquecemos em nossa sociedade obcecada pelo sucesso individual.
Crescemos ouvindo que devemos “voar alto”, “vencer sozinhos”, “ser águias”.
Mas o mundo que sobrevive não é feito apenas de predadores. É feito de ninhos, asas abertas, e calor compartilhado.

A natureza é sábia: ela não erra em suas estratégias.
E talvez, no fim das contas, sejamos sobreviventes justamente porque viemos de mães-galinha — seres que entenderam que proteger também é uma forma de vencer.